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É hora de discutir a liderança feminina na indústria 4.0

Tempo de Leitura: 8 minutos

O dia 8 de março celebra o Dia Internacional da Mulher, data que traz à tona a importância do papel feminino na construção da sociedade. Qual tem sido o papel feminino na indústria 4.0?

Para debater esse tema, a ABII convidou a Renate Fuchs, que é Associate Director – Industry X Latam da Accenture e vice-presidente da Associação de Engenheiros Brasil/Alemanha (VDI-Brasil).

A entrevistada está na linha de frente de um programa chamado Industry4Her (e a ABII é uma das apoiadoras da 2ª edição). Projeto esse que tem como objetivo ampliar o número de mulheres que lideram a evolução na indústria 4.0 no país. Confira a entrevista!

Indústria 4.0 – Uma visão feminina de liderança

A entrevista foi dividida em 9 questionamentos específicos, que buscaram relatar em detalhes qual é o panorama real da liderança feminina na indústria 4.0.

ABII- As mulheres representam apenas 28% da força de trabalho em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (CTEM). Esse dado global foi apresentado pelo Science & Engineering Indicators 2018, elaborado pela Nation Science Foundation. No Brasil temos uma realidade semelhante? Qual o cenário?

Renate: Sim, temos proporcionalmente menos mulheres optando pela formação em CTEM, o que não significa não termos inúmeras mulheres muito bem capacitadas no mercado. Por exemplo, no ano passado, quando lançamos o programa de qualificação de Engenheiras em Indústria 4.0 da VDI Brasil, o Industry4her, tivemos mais de duas mil interessadas em menos de duas semanas, somente por meio de breve divulgação no LinkedIn. Recebemos 450 inscrições com cartas motivacionais que demonstram que a demanda existe dos dois lados. Temos empresas em busca de habilidades femininas e temos muitas mulheres motivadas para fazer parte da transformação digital da indústria. Em primeira linha temos que ter melhor capacidade de mapeamento destes talentos e garantir possibilidades de desenvolvimento e alocação em cargos interessantes e desafiadores para elas.

ABII- Qual a raiz do problema quando falamos da força de trabalho em ciência, tecnologia, engenharia e matemática? Falta formação ou faltam mulheres escolhendo estas áreas de formação? O que fazer?

Renate: A raiz do problema tem suas origens na infância: desde cedo as meninas são confrontadas com estereótipos e estimuladas a se desenvolverem em temas diferentes dos meninos. As meninas são elogiadas pela aparência física ou por se comportarem. Ganham bonecas e escutam histórias sobre princesas salvas por príncipes. Falta o incentivo para construir e liderar. Na escola a maior parte das referências em exatas é masculina e este cenário não muda nas universidades. Portanto, é necessário agirmos já na educação, desde os primeiros anos, criando um ambiente inclusivo, excluindo limites e motivando as meninas que se interessam por ciências, tecnologia e engenharia. Referências são importantíssimas neste cenário. Me lembro que eu me interessei por genética e até fui atrás de saber mais sobre opções. Mas esbarrei em falas que me desmotivaram. Acabei estudando Engenharia, pois desde cedo trabalhei em linhas de montagem de caixas de câmbio nas minhas férias e tive a oportunidade de conhecer esse mundo tão fascinante, além de ter um pai engenheiro que foi peça essencial na minha escolha. Mas, quando participei de um treinamento executivo na Singularity University, conheci uma executiva incrível na área de Biologia que trabalha com os projetos mais inovadores. Pensei na hora que conhecer alguém como ela poderia ter me dado ainda mais perspectivas e cenários para a escolha da minha formação.

ABII- Nos últimos anos tivemos várias conquistas obtidas rumo à igualdade de gênero, mas a indústria ainda tem uma presença masculina predominante. De que forma as empresas podem contribuir?

Renate: Realmente podemos observar que muitas empresas dão passos para serem mais inclusivas e diversas. Na indústria e, principalmente, quando falamos de áreas voltadas à operações e manufatura, ainda vemos poucas mulheres como um todo fazendo parte e principalmente liderando equipes. Fato é que para obtermos uma mudança de forma mais rápida e sustentável, as empresas devem trabalhar com programas amplos de liderança inclusiva que começam com o entendimento da situação atual e o reconhecimento dos gaps, mas principalmente dos benefícios que a igualdade de gênero traz. Os programas possuem um plano estratégico, com responsabilidades definidas e uma clara comunicação interna e externa. Além disso, a liderança deve ter papel chave no cumprimento das metas estabelecidas e na inclusão por meio de exemplo. E não para por aí, pois as metas e resultados devem ser monitorados e cobrados de forma transparente para que desvios de rota sejam rapidamente ajustados.

ABII- Em relação a participação das mulheres nos cargos de liderança (segundo um estudo realizado pela Bain & Company em parceria com o Linkedin, apenas 3% das mulheres ocupam cargos de liderança no país) o desafio é ainda maior. E se fizermos um recorte “liderança feminina e indústria 4.0” temos um caminho gigante para percorrer. Por onde começar?

Renate: É fato que o cenário atual está bem longe do ideal e existe uma série de ações que podem e devem ser feitas para que possamos mudá-lo. Na minha opinião, o primeiro passo é mapear internamente os talentos femininos e criar um plano de desenvolvimento e de carreira. Quais são as qualificações técnicas e de liderança da Indústria 4.0 que ajudariam a alavancar a carreira das mulheres da empresa? Como garantir que elas façam parte dos principais projetos estratégicos e de transformação em papéis protagonistas? É imprescindível que a empresa garanta a representatividade, pois isso motiva várias outras mulheres a buscarem seu espaço. É importante também que o processo de recrutamento seja repensado para que a inclusão ocorra desde o momento da busca e que também continue durante as entrevistas, processo de decisão e inclusão desde o primeiro dia de trabalho. Por exemplo, será que as vagas são descritas de forma a atrair mulheres? Durante as entrevistas, elas têm a oportunidade de conhecer líderes mulheres nas quais possam se inspirar? Os entrevistadores estão preparados para tomarem a decisão do candidato final sem vieses? Existem muitas boas práticas que devem ser levadas em consideração para que haja maior taxa de sucesso tanto no desenvolvimento quanto no recrutamento de mulheres.

ABII- A pandemia fez a participação das mulheres no mercado de trabalho do Brasil como um todo retroceder. O percentual de mulheres que estavam trabalhando ficou em 45,8% no terceiro trimestre de 2020, segundo os dados do Ipea. O nível mais baixo desde 1990, quando a taxa ficou em 44,2%. Nos cargos de liderança da indústria também ocorreu este movimento? O que mais a pandemia trouxe de desafios, aprendizados ou mudanças neste aspecto?

Renate: A pandemia trouxe inúmeros desafios às mulheres em todos os níveis de carreira. Um motivo central é a dificuldade de balancear o trabalho e a vida pessoal, que impacta a produtividade e o desenvolvimento de carreira. De acordo com uma pesquisa da Kaspersky, 40% das brasileiras que trabalham com tecnologia acredita que a pandemia atrasou seu crescimento profissional. Apesar de 48% das mulheres entenderem que o home office facilita a igualdade de gênero, existem ainda barreiras que as impedem de evoluir na vida profissional. A presença no escritório para que possam ser vistas e consideradas para projetos e promoções é uma delas. Essa situação reforça ainda mais a necessidade de bons canais de comunicação, tanto em relação à programas de inclusão e desenvolvimento, quanto para conversas sobre a situação que cada uma enfrenta e suas ambições de carreira.

ABII- Empresas tendem a ter uma performance até 15% maior quando investem em diversidade de gênero (McKinsey). Há pesquisas que falam de motivação, redução de conflitos e melhor comunicação. Quais são os principais benefícios de ter mulheres em cargos de liderança na indústria?

Renate: Os benefícios da diversidade de gênero vão além de uma melhor comunicação. A pesquisa global “Getting to Equal” da Accenture traz uma correlação importante entre a inclusão, a diversidade e a inovação. Nas empresas onde os 14 fatores que impulsionam a cultura de igualdade estão mais presentes, a disposição e a capacidade de inovar – que chamamos de mentalidade de inovação – é cinco vezes maior do que nas empresas em que os fatores são menos comuns. Profissionais de culturas mais igualitárias veem menos barreiras para inovar no trabalho e têm menos medo de falhar. Nas empresas com fatores predominantes, 57% afirmam que nada os impede de inovar versus 30% nas empresas com poucos fatores. No contexto da Indústria 4.0 precisamos de uma liderança diversa e inclusiva para assim criarmos soluções tecnológicas e sustentáveis nos diversos setores.

ABII- Como superar os desafios e aumentar a participação das mulheres na liderança da indústria 4.0?

Renate: Aqui temos um tema cultural importante para ser trabalhado. A pesquisa da Accenture “Getting to Equal” sugere três catalisadores da mudança para que a inclusão possa fazer parte do DNA da empresa. O primeiro ponto é que a igualdade de gênero deve ser prioridade estratégica para a liderança. Compromissos, ambições e metas de diversidade devem ser compartilhados dentro e fora da organização. Junto com a estratégia, a empresa deve fomentar práticas inclusivas, por exemplo, criando uma rede de mulheres aberta à participação de todos. Por fim, é importante criar um ambiente empoderador, no qual a organização confia em seus profissionais e permite que sejam autênticos no trabalho.

ABII- O que é o Industry4Her da VDI Brasil e como este movimento pode ajudar a mudar a realidade no país? Como as empresas podem participar?

Renate: Como vice-presidente e chairwoman do cluster de Inclusão e Diversidade da VDI Brasil (Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha) eu refleti bastante sobre a criação de um programa que pudesse trabalhar o gap existente na liderança feminina no âmbito da Indústria 4.0. Para a VDI Brasil o aumento da representatividade feminina na Indústria 4.0 é um tema prioritário e seu resultado depende essencialmente da capacidade de superar restrições à diversidade de ideias e pessoas. A equipe da VDI e grandes parceiros lançaram em maio de 2020 o programa Industry4Her, uma iniciativa que visa reunir engenheiras motivadas a assumir posições de liderança no setor e qualificá-las por meio de módulos técnicos, de liderança, contato com empresas pioneiras na implantação de soluções 4.0 e a realização de um projeto. Na primeira edição, 24 engenheiras foram selecionadas com base em sua motivação para maior representatividade de mulheres na transformação digital da indústria. A próxima onda do projeto inicia neste dia 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher. O novo formato contará com o patrocínio de empresas que garantirão vagas para suas próprias Engenheiras e subsidiarão outras para Engenheiras que necessitem de apoio para recolocação no mercado de trabalho ou início de suas carreiras.

ABII- A ABII tem como missão promover o crescimento e o fortalecimento da indústria 4.0 e da IIoT no Brasil. Uma mensagem final para as mulheres (líderes ou não) das empresas associadas da ABII.

Renate: Eu trabalhei boa parte da minha carreira em ambientes majoritariamente masculinos. Por muitos anos eu me vi como a única mulher em reuniões, projetos e eventos de trabalho. Tive pouquíssimas referências femininas por perto, assim como oportunidades restritas de liderar outras colegas. Mas quanto mais eu me via como minoria e me sentia fora do lugar, mais eu entendia a importância de motivar, incentivar e desenvolver outras mulheres. E quando eu iniciei esta jornada, percebi o quanto somos incrivelmente fortes juntas! Portanto, tenho duas mensagens principais: em primeiro lugar acreditem em vocês e nos seus sonhos! E principalmente, vamos nos unir! Temos que trilhar o caminho e puxar as próximas mulheres para compormos e liderarmos equipes diversas, inovadoras e eficientes. Assim vamos co-criar a Indústria 4.0 que o nosso país merece!

A participação feminina na indústria 4.0 em números

Ao longo da entrevista, como você deve ter percebido, uma série de estudos foram citados. Abaixo você pode conferir um pouco mais sobre cada um deles, para que assim, possa se aprofundar no tema.

Industry4Her: saiba mais informações neste post e nas sociais do projeto: Instagram, LinkedIn.

* Getting to EqualAccenture: o estudo que é lançado anualmente e demonstra de forma bastante precisa o nível de presença feminina na indústria 4.0, não apenas nos EUA, país do estudo, mas em todo o globo.
* Science & Engineering Indicators 2018Nation Science Foundation: estudo que demonstra o panorama americano de índices de participação nas áreas de ciência e engenharia. Entre eles a distribuição por gênero.
* Bain & Company e LinkedIn: o estudo Sem Atalhos: Transformando o discurso em ações efetivas para promover a liderança feminina sugere ações que visam aumentar a participação feminina nas empresas.
* Kaspersky: pesquisa demonstra o quanto a pandemia do Coronavírus (COVID-19) atrasou a trajetória profissional das mulheres.
* McKinsey: como a diversidade pode ser uma alavancar a performance corporativa.

Confira como foi o painel sobre Liderança Feminina na Tecnologia

 

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Sobre a ABII

A Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII), fundada em agosto de 2016, atua com o objetivo de promover o crescimento e o fortalecimento da indústria 4.0 e da IIoT (Industrial Internet of Things) no Brasil. Fomenta o debate entre setores privado, público e acadêmico, a colaboração e o intercâmbio tecnológico e de negócios com associações, empresas e instituições internacionais, a partir do desenvolvimento de tecnologias e inovação. A ABII é signatária do Acordo de Cooperação com o IIC (Industrial Internet Consortium), consórcio criado em 2014, nos Estados Unidos, com o mesmo fim, pela IBM, GE e Intel. Buscando inserir o Brasil nesta revolução, Pollux, Fiesc/Ciesc e Nidec GA (empresa detentora da marca Embraco) uniram-se para fundar a ABII.

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